Adam estava confuso. Chegara a um lugar estranho. Era como se o céu e o chão fosse uma coisa só. Mas, no chão dava para se ver refletido. Sim, era isso! Realmente tinha um chão, que de tão polido refletia exemplarmente tudo o que estava sobre ele, inclusive o céu. Por isso parecia que se fundiam numa coisa só.

De qualquer modo, não havia explicação de que lugar era aquele. No céu, nuvens cobriam tudo. Nuvens claras e escuras passavam indolentemente. Havia luz, mas nenhum sol ou lua, o que impedia-o de saber se era noite ou dia. O problema era saber de onde e para onde aquelas nuvens iam, já que não havia nada em que pudesse basear seu sentido de orientação. Realmente, um lugar muito estranho.

Não havia portas ou janelas (se é que estava em um recinto fechado), nenhum som por mais ínfimo que seja. Mesmo os seus passos não soavam naquele ambiente. Assim, Adam estava muito confuso. Então, resolveu andar. Como no lugar não havia muitas diferenças (para não dizer que era totalmente igual) em todas as direções, Adam escolheu uma direção qualquer (norte, sul, leste ou oeste, ele não sabia) e foi. Após andar por – quanto tempo mesmo? –, bem por algum tempo, ele viu uma coisa insólita (o termo “estranho” estava ficando corriqueiro demais): um gato olhando para uma ampulheta. Um gato preto de tamanho normal (ao menos uma coisa tinha que ser normal) olhando para uma ampulheta que estava flutuando diante do dito felino (o que não era normal em absoluto). “Uma ampulheta de cerca de 1 metro e meio de altura flutuando… essa é boa!” – pensou Adam. E para que diabo aquele gato estava olhando? “Para a ampulheta, seu idiota!”, respondeu o subconsciente de Adam. Bom, já que as coisas já estavam estranhas mesmo, por que não ir até lá? E Adam foi.

Andando rapidamente, Adam levou quase cinco minutos para chegar até as duas figuras. Cinco minutos? E quase correndo? A que distância estavam eles? Bem, não importa. Chegando perto – e ofegante – nosso amigo ouviu um “pssssssit”. Adam olha para um lado, para o outro e para o gato.

– Shhhhhhh! – ouviu de novo; e, em seguida – Não faça barulho, nem me atrapalhe.

Estupefato, Adam compreendeu quem dissera aquilo: O gato. Um gato que, na verdade, não era preto, mas marrom escuro. E ele o disse com uma voz masculina doce, melodiosa, suave e tranqüila. Nunca na vida Adam ouvira uma voz como aquela. E daí? Ele também nunca tinha ido a um lugar daquele, nem tinha ouvido um gato falar. Se isso é um sonho, pensou Adam, meus amigos vão se divertir de montão.

– Quem é você? – perguntou, em voz baixa, para o gato.
– Fale mais baixo – disse o gato sem tirar os olhos da ampulheta – sou um Guardião. E isso não é um sonho, Adam.
– Como é o seu nome – perguntou Adam, esquecendo o absurdo de trocar palavras com um animal. – e como sabe o meu nome e em que eu estava pensando?
– Nome? Para que um nome? Se uma rosa deixasse de se chamar rosa, ela seria menos perfumada?
– Shakespeare? Você lê Shakespeare? – perguntou Adam
– Por que você se assombra, Adam?
– Quero saber como sabe o meu nome e como sabia no que eu estava pensando – disse nosso amigo estupefato.
– Simplesmente, eu sei. Só não sei a que devo a honra de sua visita. Você pode me dizer? – perguntou o Guardião, que até agora não tinha tirado os olhos da ampulheta, vendo a areia brilhante cair calmamente na parte de baixo.
– Pois, esta é uma pergunta que também estou me fazendo. O que vim fazer aqui? Aliás, que raio de lugar é este? Parece o Fim-do-Mundo.
– Mais precisamente do Universo.
– Desculpe-me, não entendi.
– Simples: este é o Fim-do-Universo. Deste Universo, bem entendido.
– O que quer dizer com Deste Universo?
– Exatamente isso. Diga-me, você não é muito inteligente, não é?

Agora, Adam se irritou. Ser chamada de burro por um… um… um gato! Está certo, é um gato falante, mas…

– Olhe aqui, seu bichano metido a besta, você não pode falar assim comigo. Ademais…
– Fale baixo, por favor, está atrapalhando assim – repreendeu-o, calmamente, o felino.
– Ademais, exijo saber onde estou, quem é você e como faço para sair daqui. – disse Adam num sussurro.
– Meu caro, escute, eu já lhe respondi às duas primeiras perguntas. Este é o Fim-do-Universo, e eu sou um Guardião. Quanto à terceira pergunta, o caminho de saída é o inverso do que você usou para entrar.
– Muito obrigado, mas este é o problema. Não sei como vim parar aqui. Antes de tudo pode me dizer uma coisa?
– Não é o que estamos fazendo? Dizendo coisas um ao outro? Pode perguntar, caro Adam.
– Você é o guardião de quê?
– Da Ampulheta. – disse o gato, enquanto estendia uma pata para apontar o objeto flutuante à sua frente.
– Oh-oh! Muito obrigado! – ironizou Adam. – E para que serve esta porcaria?
– Eu disse Ampulheta, caro Adam, não Porcaria.
– Você quer me levar à loucura?
– Pense, meu caro, de onde você vem é normal um homem falar e receber resposta de um gato? – disse a voz melodiosa – De qualquer forma, você não está louco, mas espere um instante.

Dizendo isso, o gato ergue mais uma vez a pata para a Ampulheta, levanta-se, espreguiça-se e olha para Adam, o que fez com que nosso amigo se estarrecesse ainda mais. O motivo? Ele esperava ver algo de diferente, anormal no gato, mas não. Era um gato normal (se é que havia algo de normal em tudo aquilo). Um gato de aparência normal que falava. E tinha brilhantes olhos verdes.

– Venha comigo, por favor – disse o Guardião.

E deu alguns passos, sendo seguido de perto por Adam. De repente, Adam nota que uma espécie de porta dupla se fecha atrás deles. Uma porta dupla de vidro. Mas, Adam mais sentiu do que viu e, quando se virou, quase caiu para trás: um outro gato, igual ao Guardião, estava a olhar para a Ampulheta.

– Sente-se – disse o guardião. Adam virou-se rapidamente e viu à sua frente uma cadeira e uma mesa que não estavam ali antes, ou estavam? O Guardião pulou para cima da mesa, ficando com os seus brilhantes olhos verdes na mesma altura dos de Adam.
– Quem é aquele? – perguntou Adam, não querendo pensar de onde vieram a cadeira e a mesa.
– O Guardião – respondeu o felino.
– Ah, então tem mais de um de você?
– Não. Só há um Guardião para cada Universo.
– Espere aí! Se você é O Guardião daqui, e aquele lá é O Guardião daqui, então você e ele são a mesma pes… hã… o mesmo Guardião?
– Bom, caro Adam – disse o Guardião com satisfação estampada em seu rosto (Adam teve a impressão que ele até sorria) –, até que você não é tão desprovido de inteligência quanto eu pensei a princípio.
– Claro que não, seu monte de pêlos – replicou Adam com azedume. – Mas, como você pode estar aqui e lá ao mesmo tempo?
– Percebo a sua confusão, caro Adam. De onde você vem, o espaço-tempo não comporta este… hã… paradoxo. Mas, você se esqueceu de que estamos no Fim-do-Universo.
– Muito bem, Guardião, e onde fica o início.
– Início do quê? – perguntou o Guardião.
– Início do Universo, ora.
– Ah, mas é aqui mesmo – disse o Guardião.
– Como pode aqui ser o início e o fim do Universo?
– Onde fica o inicio do planeta de onde você veio?

Ante esta indagação, Adam não tinha resposta. Realmente, onde ficava o início da Terra? Do Espaço Sideral ou de seu Centro? Melhor deixar estas considerações para lá, já que ciência nunca fora o seu forte. Melhor se preocupar com uma coisa de cada vez.

– Você disse que era o Guardião. O que você guarda.
– Já lhe disse Adam, a Ampulheta.
– Ah, sim, mas, quero dizer, para que serve aquela ampulheta? – perguntou Adam meio desconcertado.
– Para nada. Simplesmente é A Ampulheta.
– Deixe-me ver se eu entendi: – recomeçou Adam. – Estamos no Fim-do-Universo, que também é o início, um gato falante chamado Guardião, por não ter nome melhor, guarda uma… desculpe, “A” Ampulheta, que não serve para nada por ser A Ampulheta. Ah, ia esquecendo, você ainda pode ler pensamentos e estar em dois lugares ao mesmo tempo por não existir as tais leis de tempo e espaço que na Terra. É isso mesmo?
– Muito bem, eu mesmo não poderia ter explicado de uma forma melhor – respondeu com satisfação, o Guardião.
– E você ainda me diz que eu não estou maluco! Para que guardar uma coisa que não serve para nada? – perguntou Adam exasperado.
– Por um motivo simples, meu caro – disse com serenidade o Guardião – Por que aquela Ampulheta é o Universo!
– Aquela Ampulheta é o.. o.. Universo? O Universo? – perguntou o nosso amigo mais confuso do que nunca.
– Pelo menos é o seu Universo – respondeu o Guardião
– Desculpe, esqueci. E quantos Universos existem, Guardião?
– Um número muito superior ao de pêlos em meu corpo – respondeu com um certo tom de triunfo, o felino. – Observe só isso.

Olhando em torno de si, Adam nota que estava de volta à frente da Ampulheta, com o Guardião a observá-la.

“Esta história de espaço-tempo já está me irritando”, pensou Adam.

– Não precisa se irritar – recomeçou o Guardião – veja o fluxo dentro dela.

Quando Adam observou melhor, viu que não era areia o que caía, mais algo mais vaporoso, fluídico, mas algo que parecia não ocupar espaço físico. Fluía de cima para baixo, mas o nível de baixo não crescia e nem o de cima decrescia. Havia apenas um fluxo constante, inalterável. Uma beleza indescritível!

– Essa é a beleza do Universo. Ele simplesmente existe. Seu espaço está em si mesmo, pois ele carrega o seu espaço-tempo. Consegue compreender, caro Adam?
– Sim, creio que sim – murmurou Adam.

E ele realmente entendia. Não sabia como, mas entendia. Era como pensar no oceano. Ele ia e vinha, ia e vinha. Era apenas o oceano e que se danasse a composição da água, os sais dissolvidos nela, os animais que lá viviam e morriam. Simplesmente era o oceano e ponto final!

Ao olhar novamente para o bichano, o que ficava cada vez mais difícil, ante a beleza do espetáculo à sua frente (como ele pudera negligenciar aquilo?), Adam percebia que ele fica maior, mais majestoso. Junto com A Ampulheta, o Guardião crescia e seus brilhantes olhos verdes mudavam de formato, mas não de cor.

– Você nunca teve um nome, Guardião? – perguntou Adam sem saber direito o por quê.
– Sim, uma vez eu tive. – suspirou o Guardião
– Sei. Mas, você não disse como faço para sair daqui. Alguma vez você já saiu?

Com tristeza no olhar, se é que era tristeza o que Adam pôde perceber, o Guardião respondeu que não.

– Por que não? – quis saber Adam, que já tinha desenvolvido uma afeição pelo gato.
– Por que este é o meu castigo: Tomar conta do Universo para que nada lhe aconteça, mesmo sabendo que nada há de lhe acontecer. Por séculos e mais séculos, milênios atrás de milênios até alguém fazer algo pior do que eu fiz quando eu morava nele.
– O que você fez de errado, Guardião? – Perguntou Adam, mais que interessado.
– Negligenciei o mundo. Recebi uma ordem e não a cumpri. Uma ordem simples e direta. Tudo porque alguém me disse que nada iria acontecer – a tristeza na voz do Guardião era quase palpável. Adam quase a pegava em sua mão que estava diminuindo.
– Que ordem era essa? – perguntou Adam
– Usar de humildade, mas era uma metáfora que eu não entendi. Achei-a tola e a desobedeci. – disse o Guardião chegando quase ao tamanho de um homem. Adam estava mais estupefato com isso, já que o guardião estava apresentando feições humanas.
– Apesar disso, minha sina chega ao fim. Eu fui substituído – disse, com alívio, o Guardião.
– Substituído? E por quem? – indagou Adam.
– Por um “xará”, como vocês diziam em seu planeta. Ele fez algo pior do que eu. Ele destruiu o planeta em que morava; tudo por causa do seu egoísmo e ganância. Criou uma guerra estúpida (não que outras guerras não sejam estúpidas) e com o aperto de um botão dizimou bilhões de vidas.
– Não posso crer que um ser humano tenha feito isso – disse Adam – ninguém pode agir assim impunemente. Como é o nome desta criatura hedionda?
– Já lhe disse, é um “xará” meu. – disse o Guardião já com a forma de um ser humano. Um homem alto e forte. De bela fisionomia, porte atlético e expressivos olhos verdes.
– Mas, que droga! Qual é o seu nome, afinal de contas?
– Em cada país eu tinha um nome que se adequava à língua. Na Índia me chamavam Adimo, no Brasil, Adão e, nos Estados Unidos da América: Adam.

Só então Adam T. Crawford se lembrou. Era o Presidente do que era considerada a nação mais poderosa da Terra. Cheio de orgulho e arrogância, criou guerras contra todos os que a sua paranóia insistia em dizer que eram seus inimigos. Até que em uma guerra travada contra a China, ele viu que não tinha como vencer em número o exército chinês. Então ele resolveu usar a Bomba. Chineses em bases militares localizadas em outras partes do mundo despejaram o que tinham em seus arsenais nucleares em bases fora da China contra os E.U.A. O mundo virou um inferno termonuclear. Foi o fim do planeta.

– Mas, você é o Guardião! Por que não impediu? – perguntou com voz doce e melodiosa o novo Guardião.
– Eu era um Guardião do Universo, não dos corações humanos. Todos nós temos o livre arbítrio para fazer qualquer coisa. Só não nos é permitido escapar impunemente. A missão do Guardião é proteger o restante do Universo, que está sob sua observação, para que não sofra com um ato tolo, realizado em um mundo em um determinado extremo. Todos os outros mundos devem seguir o seu destino, e seus governantes não devem ser estimulados ou atrapalhados em suas decisões. Como eu disse, todos nós temos escolhas e nenhuma força externa deve influenciar a decisão final. Agora, olhe o fluxo.

Ao olhar para o fluído que passava, Adam Crawford viu que havia um minúscula falha nele. Uma falha que indicava onde estava localizado o belo, e agora extinto, Planeta Azul. Mas que, de um modo geral, sem este ínfimo detalhe, o Fluxo Universal continuava inalterado. O Guardião tinha feito o seu trabalho.

– E agora, o que eu faço? Como e quando sairei daqui? – perguntou uma voz doce, masculina, melodiosa e tranqüila, que não se cansava de olhar para A Ampulheta.
– Um dia sairá – respondeu, sem se virar, o Guardião antecessor, quer dizer, Adam, ou Adão ou Adimo. – Quando alguém, com o mesmo nome que você, vier até aqui, você sairá. Quando, eu não sei. Mas virá. Este é o seu castigo por você ter comido a sua maçã de egoísmo e arrogância.
– Mas, eu não sei o que devo fazer – disse Adam em desespero. – Não soube cuidar de um país, como vou poder cuidar de um Universo inteiro? Quem há de me ensinar? Qual será a coisa mais reprovável do que ser responsável pela morte de bilhões de pessoas? Quando esse Adam, que eu não conheço, cometerá esse crime hediondo, seja lá qual for? Como conduzirei o Universo daqui para frente? Ajude-me, por favor!
– Não posso lhe ajudar, Guardião. Como lhe disse, nunca fui o guardião dos corações humanos (e nem dos que não são humanos). Mas, em seu Universo há um número imenso de galáxias com trilhões de estrelas e sistemas em cada uma. A probabilidade de que haja uma criatura pérfida e mesquinha, que um dia porá tudo a perder é grande. Apesar de eu desejar que nunca aconteça novamente. Como você conduzirá o Universo é com você, eu não posso ensinar-lhe, já que ninguém me ensinou. Mas, não se preocupe. Você tem todo o tempo do mundo à sua frente e, dentro de alguns séculos, ou mesmo milênios, você aprenderá. Adeus, Guardião.

E dizendo isso, o ex-Guardião desvaneceu-se.

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